Carta

Minhas queridas crianças e adultos com menos de 120 anos de idade, peço licença a todos para contar um pouco da minha vida. Vocês vão ver que nasci há muito tempo atrás, mas somente agora tive a oportunidade de participar dessa produção.

Meus olhos não são expressivos e tampouco minha boca mexe quando eu falo. Na verdade, o problema é que penso bastante, como todo mundo faz.

O meu corpo é construído com algumas esferas, conforme vocês podem ver. Tenho poucos movimentos dos braços e minha ação depende também dos outros personagens que criei para me ajudar a contar uma história.

A minha vida mudou muito depois de me tornar um desenho animado.

Agradeço o aval da Ordem dos Poetas da Língua Portuguesa, sem o qual este filme não encontraria o sentido e dimensão que julgo ter. Particularmente, agradeço ao seu presidente, o Sr. Luís de Camões, com o qual compartilhei também uma grande amizade.

Confesso que não sabia exatamente o que estava fazendo. Achei alguns instrumentos naquela minha caminhada e fiz o que um simples desenho animado poderia fazer naquelas condições. Entretanto, um filme nunca termina, falta ainda muito para contar. É bem provável que, nos próximos meses, vocês possam compartilhar de uma outra história, que começa como todas as outras histórias: Era Uma Vez…!

Crianças de língua portuguesa e crianças dos demais idiomas falados no mundo inteiro, saibam que esse filme é dedicado a vocês, por muitas razões, algumas das quais gostaria de destacar.

A primeira, por eu ter sido criança também, muito de minha infância está registrado nesse filme. Depois, eu compreendi que crescer é transmitir o conhecimento para quem está crescendo e, então, fui fazendo a minha história.

A segunda, foi por vocês por terem soprado na hora certa. Queria ter o tempo de vida necessário para fazer um outro filme e dedicá-lo novamente a vocês.

Nessa minha caminhada, fiz amizade com milhares de crianças de Norte a Sul deste País, ensinei um pouco e aprendi muito com elas.

As crianças ricas me disseram que a maior riqueza é a amizade.

As crianças pobres me disseram para acrescentar a generosidade e que é preciso compartilhar tudo o que se traz no coração.

As crianças índias me ensinaram que a dignidade é o maior valor da humanidade.

As crianças negras me ensinaram que a origem de toda a humanidade está na tez de sua pele e que não há razão para tanto preconceito.

As crianças com deficiência me ensinaram que o verbo mais difícil da língua portuguesa é o verbo “transpor”, pois subir uma montanha é tão difícil quanto descer.

As crianças doentes me ensinaram que a tristeza e o sofrimento, assim como a alegria e o prazer, fazem parte da natureza humana.

As crianças órfãs murmuraram no meu ouvido que os verdadeiros pais morrem não apenas pelos seus filhos, mas por todas as crianças.

E assim foi a minha caminhada…

Bom, crianças, não vou mais incomodá-las.

Mas acredito que a felicidade voltará a reinar sobre a face da Terra e, por isso, eu e meus personagens contamos esta história.